Num passado não muito distante. Um ponto memorável no processo de autodescoberta. Levaram-me pelas mãos com meus olhos vendados. Era um jardim. Ou pelo menos imagino que seja pela grama fresca sob meus pés descalços. Mãos macias e afáveis. Mãos maternas. Era uma tarde ensolarada que aquecia minha pele que suava com o calor. Quando, então, as mãos começaram a se afastar. Agarrei-as assustada com a ideia do abandono, não as poderia soltar, não as deixaria ir. O que seria de mim ali sozinha, no escuro? Sem saber o que havia adiante. Doía só de pensar. Foi aí que ouvi uma voz familiar me dizer com serenidade: Solte! Pode confiar. Você não está só. O insight golpeou-me em calafrio, apertando o coração. Como quando nuvens densas encobrem seu céu azul. Caí de joelhos aos prantos. Um choro do ventre, daqueles que não cabem na garganta, entalando, sufocando. Como puderam me desertar dessa forma? Eu soube naquele momento que não me restaria mais nada a não ser levantar e andar. Por mim mesma. Apesar de não saber o que encontraria então. Andei devagar, com minha angústia, tateando o vazio no afã de tocar algo e me encontrar. Mas não havia nada. Só uns toques de leve no meu ombro que me indicava a direção. Decerto eu não estava só. Isso confortou meu coração. Comecei a acreditar. Fui acometida por uma segurança que me lançou adiante, corri. Corri destemida e segura, sorrindo orgulhosa. Senti-me viva enfim. Eu estava livre.

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