Já o leitor compreendeu que era a Razão que voltava à casa, e convidava a Sandice a sair, clamando, e com melhor jus, as palavras de Tartufo:
- A casa é minha. Você que tem de sair!
Mas é sestro antigo da Sandice criar amor às casas alheias, de modo que, apenas senhora de uma, dificilmente lha farão despejar. É sestro; não se tira daí; há muito que lhe calejou a vergonha. Agora, se advertirmos no imenso número de casas que ocupa, umas de vez, outras durante as suas estações calmosas, concluiremos que esta amável peregrina é o terror dos proprietários. No nosso caso, houve quase um distúrbio à porta do meu cérebro, porque a adventícia não queria entregar a casa, e a dona não cedia da intenção de tomar o que era seu. Afinal, já a Sandice se contentava com um cantinho no sótão.
— Não, senhora, replicou a Razão, estou cansada de lhe ceder sótãos, cansada e experimentada, o que você quer é passar mansamente do sótão à sala de jantar, daí à de visitas e ao resto.
— Está bem, deixe-me ficar algum tempo mais, estou na pista de um mistério...
— Que mistério?
— De dois, emendou a Sandice; o da vida e o da morte; peço-lhe só uns dez minutos.
A Razão pôs-se a rir.
— Hás de ser sempre a mesma coisa... sempre a mesma coisa... sempre a mesma coisa...
E dizendo isto, travou-lhe dos pulsos e arrastou-a para fora; depois entrou e fechou-se. A Sandice ainda gemeu algumas súplicas, grunhiu algumas zangas; mas desenganou-se depressa, deitou a língua de fora, em ar de surriada, e foi andando...
Quem nunca?! Quem nunca foi tomado pela sandice de Machado em Memórias Póstumas de Brás Cubas? Quem nunca pagou a língua cheia de empáfia da razão que sempre resolve os problemas alheios em dois minutos, revirando os olhos entediada, e que sempre tem um conselho na manga?
O ser humano não é um animal racional. É um animal emocional. A razão acaba servindo ao turbilhão de emoções que sentimos. E ficamos insanos. Quando ferem nosso ego. Quando nos apaixonamos. Quando gostamos. Quando não gostamos. E fazemos isso todo o tempo, julgando tudo: “isso eu gosto, isto não”. E um querer sem fim... Eu sempre quero algo. Quando consigo, eu quero outra coisa.
E a batalha continua. Vamos expulsar a sandice da casa. Nenhum cantinho! Pois bem se sabe que é pior que o animal de estimação que começa lá fora e aos poucos se apossa da cama e do coração de seu cuidador – cuidador sim, pois não somos donos de nada nesta vida. E a sandice insiste. Dá desculpas e queremos acreditar. Ela é tão sedutora, tão bela e carismática. Ela é a madrinha que embala nossa criança interior com contos e fantasias sobre castelos, princesas, felizes para sempre – ou nifas pervertidas siliconadas e insaciáveis dos filmes pornôs, no caso dos meninos - peça (chore) e será atendido. Ela nos faz acreditar que teremos tudo que queremos e não nos questiona o porquê.
Acontece, entretanto, que ela não conta o resto da história. Ela não nos conta que tudo tem um preço e que toda escolha tem seus aspectos negativos. Há todo um esforço e trabalho a fim de se conseguir o que se quer e isso demanda esforço e tempo, logo, temos de escolher em que vamos investir o nosso tempo e esforço. Não temos tempo nem condições de buscar tudo o que queremos. Destarte acabamos perseguindo miragens no deserto do nosso egoísmo. Esperando que o outro me faça feliz. E a vida acaba e não fizemos nada com ela.
Temos de ficar de olho na sandice. Ela vive à espreita. Não perde a oportunidade. Temos de tirar os óculos coloridos e entender que a vida, a realidade, é regida por leis. Leis que não dormem como nos filmes do Bruce Lee em que as pessoas ficam flutuando no ar entre um golpe e outro, tipo num cochilo da gravidade. Muito menos vamos dispensar um babaca e ao virar as costas tropeçaremos - de forma bem romântica e no dia em que você arrumou o cabelo - no homem dos seus sonhos com um buquê de flores. Na vida real vai levar meses até se descobrir que ele é um babaca e virão outros piores. E pode levar anos até aparecer alguém legal, numa afinidade que agrade a ambos o suficiente para encararem uma convivência. Na vida real não são os opostos que se atraem e sim os dispostos. E quase não se fala da paciência. Ela é a chave pra se evoluir.

