terça-feira, 4 de março de 2014

VOCÊ



 Num passado não muito distante. Um ponto memorável no processo de autodescoberta. Levaram-me pelas mãos com meus olhos vendados. Era um jardim. Ou pelo menos imagino que seja pela grama fresca sob meus pés descalços. Mãos macias e afáveis. Mãos maternas. Era uma tarde ensolarada que aquecia minha pele que suava com o calor. Quando, então, as mãos começaram a se afastar. Agarrei-as assustada com a ideia do abandono, não as poderia soltar, não as deixaria ir. O que seria de mim ali sozinha, no escuro? Sem saber o que havia adiante. Doía só de pensar. Foi aí que ouvi uma voz familiar me dizer com serenidade: Solte! Pode confiar. Você não está só. O insight golpeou-me em calafrio, apertando o coração. Como quando nuvens densas encobrem seu céu azul. Caí de joelhos aos prantos. Um choro do ventre, daqueles que não cabem na garganta, entalando, sufocando. Como puderam me desertar dessa forma? Eu soube naquele momento que não me restaria mais nada a não ser levantar e andar. Por mim mesma. Apesar de não saber o que encontraria então. Andei devagar, com minha angústia, tateando o vazio no afã de tocar algo e me encontrar. Mas não havia nada. Só uns toques de leve no meu ombro que me indicava a direção. Decerto eu não estava só. Isso confortou meu coração. Comecei a acreditar. Fui acometida por uma segurança que me lançou adiante, corri. Corri destemida e segura, sorrindo orgulhosa. Senti-me viva enfim. Eu estava livre. 


quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

RAZÃO CONTRA SANDICE

Já o leitor compreendeu que era a Razão que voltava à casa, e convidava a Sandice a sair, clamando, e com melhor jus, as palavras de Tartufo:

- A casa é minha. Você que tem de sair!

Mas é sestro antigo da Sandice criar amor às casas alheias, de modo que, apenas senhora de uma, dificilmente lha farão despejar. É sestro; não se tira daí; há muito que lhe calejou a vergonha. Agora, se advertirmos no imenso número de casas que ocupa, umas de vez, outras durante as suas estações calmosas, concluiremos que esta amável peregrina é o terror dos proprietários. No nosso caso, houve quase um distúrbio à porta do meu cérebro, porque a adventícia não queria entregar a casa, e a dona não cedia da intenção de tomar o que era seu. Afinal, já a Sandice se contentava com um cantinho no sótão.

— Não, senhora, replicou a Razão, estou cansada de lhe ceder sótãos, cansada e experimentada, o que você quer é passar mansamente do sótão à sala de jantar, daí à de visitas e ao resto.

— Está bem, deixe-me ficar algum tempo mais, estou na pista de um mistério...

— Que mistério?

— De dois, emendou a Sandice; o da vida e o da morte; peço-lhe só uns dez minutos.

A Razão pôs-se a rir.

— Hás de ser sempre a mesma coisa... sempre a mesma coisa... sempre a mesma coisa...

E dizendo isto, travou-lhe dos pulsos e arrastou-a para fora; depois entrou e fechou-se. A Sandice ainda gemeu algumas súplicas, grunhiu algumas zangas; mas desenganou-se depressa, deitou a língua de fora, em ar de surriada, e foi andando...


Quem nunca?! Quem nunca foi tomado pela sandice de Machado em Memórias Póstumas de Brás Cubas? Quem nunca pagou a língua cheia de empáfia da razão que sempre resolve os problemas alheios em dois minutos, revirando os olhos entediada, e que sempre tem um conselho na manga?


O ser humano não é um animal racional. É um animal emocional. A razão acaba servindo ao turbilhão de emoções que sentimos. E ficamos insanos. Quando ferem nosso ego. Quando nos apaixonamos. Quando gostamos. Quando não gostamos. E fazemos isso todo o tempo, julgando tudo: “isso eu gosto, isto não”. E um querer sem fim... Eu sempre quero algo. Quando consigo, eu quero outra coisa.


E a batalha continua. Vamos expulsar a sandice da casa. Nenhum cantinho! Pois bem se sabe que é pior que o animal de estimação que começa lá fora e aos poucos se apossa da cama e do coração de seu cuidador – cuidador sim, pois não somos donos de nada nesta vida. E a sandice insiste. Dá desculpas e queremos acreditar. Ela é tão sedutora, tão bela e carismática. Ela é a madrinha que embala nossa criança interior com contos e fantasias sobre castelos, princesas, felizes para sempre – ou nifas pervertidas siliconadas e insaciáveis dos filmes pornôs, no caso dos meninos - peça (chore) e será atendido. Ela nos faz acreditar que teremos tudo que queremos e não nos questiona o porquê.


Acontece, entretanto, que ela não conta o resto da história. Ela não nos conta que tudo tem um preço e que toda escolha tem seus aspectos negativos. Há todo um esforço e trabalho a fim de se conseguir o que se quer e isso demanda esforço e tempo, logo, temos de escolher em que vamos investir o nosso tempo e esforço. Não temos tempo nem condições de buscar tudo o que queremos. Destarte acabamos perseguindo miragens no deserto do nosso egoísmo. Esperando que o outro me faça feliz. E a vida acaba e não fizemos nada com ela.



Temos de ficar de olho na sandice. Ela vive à espreita. Não perde a oportunidade. Temos de tirar os óculos coloridos e entender que a vida, a realidade, é regida por leis. Leis que não dormem como nos filmes do Bruce Lee em que as pessoas ficam flutuando no ar entre um golpe e outro, tipo num cochilo da gravidade. Muito menos vamos dispensar um babaca e ao virar as costas tropeçaremos - de forma bem romântica e no dia em que você arrumou o cabelo - no homem dos seus sonhos com um buquê de flores. Na vida real vai levar meses até se descobrir que ele é um babaca e virão outros piores. E pode levar anos até aparecer alguém legal, numa afinidade que agrade a ambos o suficiente para encararem uma convivência. Na vida real não são os opostos que se atraem e sim os dispostos. E quase não se fala da paciência. Ela é a chave pra se evoluir.