terça-feira, 29 de outubro de 2013

Ele é o cara!


“Sonho com o dia em que todos levantar-se-ão e compreenderão que foram feitos para viverem como irmãos.”

E diante do apelo de milhões de pessoas vítimas do apartheid clamantes por justiça e vingança ele argumentou:
“Não temos tempo para vinganças mesquinhas, temos de ser maiores do que isso.”

O cara é um visionário com uma sensibilidade e humildade que nos inspira na luta contra o preconceito e  a opressão sofrida pelas minorias. Sensibilidade e humildade que longe de o fragilizarem lhe dão coragem de apostar na generosidade. Seu exemplo nos mostra como o ódio não nos leva a lugar algum. Que nossa luta não é contra pessoas. Nosso inimigo não é o branco, não é o homem, não é o heterossexual, não é o rico, não é ninguém que “se adeque” aos padrões “ideais” impostos pela sociedade. A luta é contra paradigmas de opressão e exclusão. Paradigmas que nem nos pertencem, mas se arrastam por séculos, arrastando a todos nós como uma correnteza da ignorância que desagua a humanidade na guerra, no genocídio, chacinas e homicídios em massa.

Até quando vamos sustentar esses paradigmas e repassá-los para as próximas gerações? De que adianta falar-se tanto em mundo melhor para nossos filhos sem filhos melhores para o mundo? Como eles farão a diferença se são criados da mesma forma que nós fomos? Como obter resultados diversos repetindo os mesmos processos?  Vamos continuar a seguir a velha receita de bolo da vovó e esperar que saia uma pizza quatro queijos do forno.

Quando me questiono sobre como é possível ainda se sustentarem culturas de exclusão numa sociedade tão amplamente globalizada e com acesso à informação, eu penso em Descartes, ele nem tinha Google, dizendo:
“Eu discordo de cada palavra que diz, mas lutarei pelo seu direito de dizê-las.”

É de direitos que devemos falar. Dos direitos dos negros de serem tratados como iguais e com respeito. Das mulheres se sentirem tão seguras e resguardadas como os homens, sem precisar “se dar ao respeito”, simplesmente por que desde de que nascemos somos cidadão e temos direito `a segurança de poder andar na rua sem ser atacada verbal ou fisicamente, sem ser desrespeitada. Quem disse a esses homens que a mulher que ele está ficando ou conhecendo diz “não” pra fazer doce, e sendo assim, ele deve forçar a barra porque ele está excitado, afinal de contas ele é um macho viril e é dever da mulher saciar esse desejo sexual, tão normal nos homens, porém leviano nas mulheres. Dos direitos dos homossexuais de terem espaço na sociedade, bem como o direito de constituir família. Enfim, os direitos dos indivíduos que formam o coletivo. Discutimos tanto os direitos do embrião enquanto nem os direitos dos nascidos são respeitados.

Tendo em vista que um coletivo é formado por indivíduos, como elos numa corrente, a massificação é opressora e presta um desserviço para a comunidade. Impor padrões fechados de comportamento e estereótipos excludentes e surreais é sustentar uma sociedade formada por hipocrisia e exclusão, o que conhecemos muito bem.

A verdadeira democracia é muito trabalhosa. Demanda muita comunicação, muito se ouvir e muito se falar. Muito debate. Exaustivos diálogos, direitas e esquerdas, e autoavaliações para se chegar a um meio termo que “agrade a todos” na medida do possível e com ambos os lados abrindo mão algumas coisas para se conquistar outras. E isso é um processo doloroso.

No entanto, se Mandela, após 30 anos de prisão, conseguiu engolir sua própria dor e humilhação para garantir, inclusive, os direitos daqueles que o prenderam e perseguiram sua família. Acredito que nossa dor é superável.

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