“Sonho com o dia em que
todos levantar-se-ão e compreenderão que foram feitos para viverem como
irmãos.”
E diante do apelo de milhões de pessoas vítimas do apartheid clamantes por justiça e
vingança ele argumentou:
“Não temos tempo para
vinganças mesquinhas, temos de ser maiores do que isso.”
O cara é um visionário com uma sensibilidade e humildade que
nos inspira na luta contra o preconceito e
a opressão sofrida pelas minorias. Sensibilidade e humildade que longe de o fragilizarem lhe dão coragem de apostar na generosidade. Seu exemplo nos mostra como o ódio
não nos leva a lugar algum. Que nossa luta não é contra pessoas. Nosso inimigo
não é o branco, não é o homem, não é o heterossexual, não é o rico, não é
ninguém que “se adeque” aos padrões “ideais” impostos pela sociedade. A luta é
contra paradigmas de opressão e exclusão. Paradigmas que nem nos pertencem, mas se
arrastam por séculos, arrastando a todos nós como uma correnteza da ignorância
que desagua a humanidade na guerra, no genocídio, chacinas e homicídios em
massa.
Até quando vamos sustentar esses paradigmas e repassá-los
para as próximas gerações? De que adianta falar-se tanto em mundo melhor para
nossos filhos sem filhos melhores para o mundo? Como eles farão a diferença se
são criados da mesma forma que nós fomos? Como obter resultados diversos
repetindo os mesmos processos? Vamos
continuar a seguir a velha receita de bolo da vovó e esperar que saia uma pizza
quatro queijos do forno.
Quando me questiono sobre como é possível ainda se
sustentarem culturas de exclusão numa sociedade tão amplamente globalizada e
com acesso à informação, eu penso em Descartes, ele nem tinha Google, dizendo:
“Eu discordo de cada
palavra que diz, mas lutarei pelo seu direito de dizê-las.”
É de direitos que devemos falar. Dos direitos dos negros de
serem tratados como iguais e com respeito. Das mulheres se sentirem tão seguras
e resguardadas como os homens, sem precisar “se dar ao respeito”, simplesmente
por que desde de que nascemos somos cidadão e temos direito `a segurança de
poder andar na rua sem ser atacada verbal ou fisicamente, sem ser
desrespeitada. Quem disse a esses homens que a mulher que ele está ficando ou
conhecendo diz “não” pra fazer doce, e sendo assim, ele deve forçar a barra
porque ele está excitado, afinal de contas ele é um macho viril e é dever da
mulher saciar esse desejo sexual, tão normal nos homens, porém leviano nas
mulheres. Dos direitos
dos homossexuais de terem espaço na sociedade, bem como o direito de constituir
família. Enfim, os direitos dos indivíduos que formam o coletivo. Discutimos tanto os direitos do embrião enquanto nem os direitos dos nascidos são respeitados.
Tendo em vista que um coletivo é formado por indivíduos,
como elos numa corrente, a massificação é opressora e presta um desserviço para
a comunidade. Impor padrões fechados de comportamento e estereótipos
excludentes e surreais é sustentar uma sociedade formada por hipocrisia e
exclusão, o que conhecemos muito bem.
A verdadeira democracia é muito trabalhosa. Demanda muita
comunicação, muito se ouvir e muito se falar. Muito debate. Exaustivos
diálogos, direitas e esquerdas, e autoavaliações para se chegar a um meio termo
que “agrade a todos” na medida do possível e com ambos os lados abrindo mão
algumas coisas para se conquistar outras. E isso é um processo doloroso.
No entanto, se Mandela, após 30 anos de prisão, conseguiu
engolir sua própria dor e humilhação para garantir, inclusive, os direitos
daqueles que o prenderam e perseguiram sua família. Acredito que nossa dor é
superável.
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